terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Breve análise do Diretório da Pastoral Familiar

 

Com o voto quase unânime na 42ª Assembleia da CNBB, realizada no ano de 2004, o Episcopado brasileiro manifestou, diante da sociedade do País e diante da consciência de todos os membros da Igreja, a dignidade que o próprio Criador deu ao matrimônio e como também a Sua Santidade como sacramento. Reconheceu e declarou, sem ambiguidades, a insubstituível dignidade e a missão da família. Com isso, encoraja e orienta as inúmeras iniciativas pastorais em favor da família já existentes em grande número de dioceses e paróquias no Brasil, e fornece indicações claras tanto doutrinais quanto pastorais e operacionais.

O documento, diretório da pastoral familiar, trata de questões de grande atualidade, é de louvável abrangência, de clareza didática e inscreve-se nas linhas da doutrina do Magistério universal da Igreja. O texto revela um competente conhecimento da realidade contemporânea, em grande parte desafiadora para o matrimônio e a família, quando não diretamente hostil a eles. Longe de apresentar considerações vagas e genéricas, o texto constitui-se, para os sacerdotes e os agentes desta privilegiada Pastoral, um autêntico manual de estudo, uma orientação teológica e antropológica e um insistente convite para incrementar, quando não para iniciar, uma generosa ação pastoral neste campo tão prioritário da Igreja.

A Pastoral Familiar no Brasil, enquanto trabalho planejado e organizado, estruturou-se a partir de meados da década de 1990. Nesse curto e turbulento período refletiu-se muito sobre a realidade familiar e seu papel intransferível de sujeito e agente sociotransformador. Essa reflexão resultou em inúmeras iniciativas em prol da família. Entretanto, outros desafios e novas exigências se apresentam. Existem práticas pastorais muito diversificadas, não só no âmbito das dioceses, mas também das paróquias, movimentos e demais organizações familiares. Isso, tanto da parte dos agentes de pastoral e ministros leigos, quanto mesmo dos pastores. Como exemplos dessas práticas, podemos citar a preparação para o sacramento do Matrimônio, a forma de participação dos casais em segunda união e dos casados só no civil na comunidade eclesial e orientações sobre o planejamento familiar, entre outros.

Quando se fala dos valores familiares, é necessário utilizar uma linguagem clara. O Papa João Paulo II, quando veio ao Brasil pela primeira vez, em 1980, afirmou: “Inúmeras famílias, sobretudo casais cristãos, desejam e pedem critérios seguros que os ajudem a viver, mesmo entre dificuldades não comuns e com esforço às vezes heroico, seu ideal cristão em matéria de fidelidade, de fecundidade e educação dos filhos. Ninguém tem o direito de trair esta expectativa ou decepcionar este reclamo, disfarçando por timidez, insegurança ou falso respeito, os verdadeiros critérios ou oferecendo critérios duvidosos, quando não abertamente desviados do ensinamento de Jesus transmitido pela Igreja”.[1]

O Matrimônio e a Família como caminho de santidade

A Familiaris Consortio, citando outro importante documento do Vaticano II, afirma que, no projeto de Deus, “a vocação universal à santidade é dirigida também aos cônjuges e aos pais cristãos: é especificada para eles pela celebração do sacramento e traduzida concretamente nas realidades próprias da existência conjugal e familiar”.[2]

“O sacramento do Matrimônio, que retoma e especifica a graça santificante do batismo, a fonte própria e o meio original de santificação para os cônjuges”.[3] Os que vão receber-se em matrimônio precisam estar profundamente convencidos de que vão ser espiritualmente enxertados em Jesus Cristo, da mesma forma como se enxerta um ramo numa videira. Nesse caso, a videira, infinitamente fecunda, é o próprio Cristo.

Na hora do casamento, os noivos não desviem a sua atenção aos aspectos acidentais e circunstanciais da cerimônia, como o ornato exterior e o brilho social. Concentrem toda a atenção para o núcleo do seu significado: por esse ato, eles vão saciar sua sede na peculiar e original fonte de santidade que São Paulo chama “o grande sacramento” da união e do amor fecundo entre Cristo e a sua Igreja. O “sim” pronunciado pelos dois não é algo passageiro. Reveste-se de grande importância, pois é o portal que introduz a uma vida permanente de santificação mútua.

A vivência dessa realidade no dia-a-dia

Embora tudo o que foi dito pareça excessivamente “teológico”, “elevado” ou “teórico”, na verdade não o é. Simplesmente, porque tudo isso deve “traduzir-se concretamente – e de fato se traduz na vida de muitos esposos – nas realidades próprias da existência conjugal e familiar”.[4]

“Não se pode construir uma espiritualidade matrimonial esquecendo aquelas que são as suas tarefas primordiais... São estas mesmas realidades conaturais ao matrimônio, tais como o amor humano, a procriação e educação dos filhos, a fidelidade e cada um dos deveres que estas implicam, as que, vividas no espírito de Cristo, santificam os cônjuges como tais”.[5]

Essa explicação, tão clara e simples, vai na “contramão” de uma outra realidade comum em certas paróquias e comunidades: alguns casais pensam que são tanto “mais católicos” quanto mais se engajam nas pastorais e demais serviços da paróquia e da Igreja, descuidando de alguns de seus deveres familiares. Essa maneira de pensar e atuar sua vocação de casado, às vezes, representa uma grave tentação que os leva a fugir dos deveres e obrigações próprios do lar que constituíram. Com efeito, fora do lar, nesse ambiente da paróquia ou da comunidade, alguns católicos se sentem acolhidos e promovidos, porque encontram nele o eco das suas próprias ideias e pretensões. Daí, talvez inconscientemente, negligenciam as tarefas domésticas, a educação dos filhos e a evangelização da família: tanto dessa família pequena, formada pelos filhos, como da outra grande família, integrada por parentes, amigos dos parentes e familiares longínquos.

Fundamentalmente, é esse o mundo que são chamados a santificar. Precisam abrirse às ondas contrárias da sociedade e dos seus problemas, sem se fechar nos ambientes – às vezes estreitos e rarefeitos – de uma pastoral paroquial que nunca deverá ser inibida e minimizadora. A vida de uma comunidade eclesial há de representar a força que impulsiona uma ação evangelizadora missionária, que tenda a cristianizar a sociedade, começando pela família, seu primeiro núcleo e célula básica.

O Papa João Paulo II frequentemente fala dessa obrigação indeclinável de santificar-se na família, no meio “das suas tarefas primordiais”. O fermento tem que estar intimamente inserido na massa. Para um casal que se recebeu em matrimônio, fugir da família e dos deveres inerentes a ela seria como fugir de Deus. Podemos expressar essas ideias de uma forma viva, encarnada no exemplo luminoso do lar de Nazaré. Família simples que viveu a vontade de Deus com amor e soube sobrelevar o sofrimento com serenidade e alegria.

Que faziam Maria e José? Trabalhavam o dia inteiro nos afazeres da casa ou do trabalho profissional: na limpeza da cozinha, na lavagem e na costura de roupa, nas compras necessárias para a manutenção do lar, na busca de água na fonte da aldeia, nos contatos com os parentes e vizinhos, nas idas ao Templo, ou nos afazeres de marcenaria, na confecção de uma porta, de um arado [...]. Faziam essas coisas normais, pequenas, que podem, no entanto, se converter em grandes pelo amor. Maria e José amavam continuamente porque a finalidade de todo o seu trabalho era a vontade de Deus, era Jesus.

Jesus era toda a motivação da vida de Maria: da comida que ela preparava, da roupa que costurava, do trigo que moía, da farinha que amassava e até do ar que respirava. [...] E Jesus era, também para José, a motivação de tudo: do banco que construía, da madeira que transportava, do cansaço da faina cotidiana [...]. Maria e José foram as criaturas mais santas que viveram na terra depois de Jesus Cristo. Como se santificaram? Fazendo, por amor de Deus, o trabalho trivial, cansativo, mas nobre, de uma mãe, dona de casa, e de um pai dedicado, dia após dia, ano após ano, comprovado no sofrimento e na esperança da fé que vence o mundo.

Que exemplo digno e belo para todas as mães e pais! Como Maria e José, fazer com perfeição e amor todos os pequenos deveres do dia-a-dia. Nada é desprezível, quando se faz por amor a Deus. Assim foi a oferta de duas pequenas moedas da pobre viúva, no Templo de Jerusalém. Foi a única esmola – sendo a menor – que fez brilhar de alegria os olhos do Senhor.

Também podemos constatar numerosos exemplos e modelos de mães e pais que com grande carinho, responsabilidade e amor aceitaram, cuidaram e educaram filhos com necessidades especiais, crianças excluídas e abandonadas. Muitas vezes, inclusive, incorporando-os numa família numerosa.[6]

A vida cristã não está dividida em compartimentos estanques, como gavetas classificadoras, uma para cada atividade: o trabalho do lar, a oração, os afazeres profissionais e fraternos, a missa dominical, a responsabilidade e solidariedade pastoral, o cuidado das crianças... Ao contrário: todas as nossas ações, pensamentos e palavras precisam entrelaçar-se numa unidade de vida simples e coerente.

Portanto, não podemos ter vida dupla, se queremos ser cristãos. Temos uma única vida, composta de corpo e espírito. É esta que tem de ser, tanto na alma como no corpo, santa e plena de Deus. Desse Deus invisível, que se torna patente para nós nas coisas mais rotineiras e materiais, sinais do seu amor providente. É nessa atitude que, em família, queremos e devemos querer ver Jesus, Caminho, Verdade e Vida[7]. Não há outra alternativa: ou buscamos encontrar o Senhor em nossa vida de todos os dias, ou não o encontraremos nunca. Esse estilo de vida cristão é o que significa “traduzir a vocação universal à santidade nas realidades próprias da existência conjugal e familiar”.

Considerações finais

Na vida de piedade de um lar cristão, todos precisam participar: marido e mulher, filhos, parentes quando existam, até mesmo os empregados e empregadas. E, de acordo com cada situação, até os vizinhos, às vezes. É certo que cada membro da família possui a sua vida interior. Mas deve existir a vida de piedade própria da família como tal, que represente verdadeiramente a “alma” daquele lar, donde se irradiam bênçãos divinas.

Para entendermos o significado e a tarefa da Pastoral Familiar, primeiro precisamos compreender o que é família hoje. Longe de olhar com saudades para o passado da família, frequentemente marcado por abusos de poder, discriminações, formas opressivas de relacionamento e até mesmo violência, mas, distante também de concebê-la como uma realidade retrógrada e irrelevante para o desenvolvimento da sociedade, a Pastoral Familiar deve propor uma nova significação da família em nossa sociedade contemporânea. Contudo, isso deve partir de um novo modo de pensar essa realidade, que pode ser melhor compreendido com o conceito de cidadania da família, realidade que não diz respeito somente aos indivíduos, mas também a própria família como tal. Numa abordagem antropológica e sociológica, mais do que religiosa, afirmar a cidadania da família quer dizer reconhecer seu papel de sujeito na construção de uma nova sociedade e promover orientações de conduta inspiradas em critérios de solidariedade e de plena reciprocidade, características constituintes da família.

A Pastoral Familiar, portanto, deve ser o esforço pastoral da Igreja visando não só defender e promover o respeito à dignidade da família, seus direitos e deveres, mas também chamar a atenção para a importância e centralidade da família como o principal recurso para a pessoa, para a sociedade e para a Igreja. Ela é o lugar onde mais se investe para o desenvolvimento de um país, já que a família é indispensável para o desenvolvimento das pessoas e da sociedade. A Pastoral Familiar deve partir da família real para a família do possível, sem perder de vista a proposta da família ideal, que é a família cristã, gerada a partir do sacramento do matrimônio e vivendo em forte unidade, harmonia e na gratuita e generosa solidariedade.

Portanto, A família constituída por um homem, uma mulher e eventuais filhos, unidos por um vínculo indissolúvel, fundada sobre o ma­trimônio é a melhor maneira de viver o amor humano, a mater­nidade, a paternidade, pois corresponde ao desígnio de Deus, é o caminho da maior realização humana e, ao mesmo tempo, constitui o bem mais decisivo para que a sociedade cresça na paz, na esperança e na caridade.


[1] João Paulo II. II Encontro Mundial com as Famílias, Rio de Janeiro, outubro de 1997.

[2] Ad Gentes, n. 39

[3] João Paulo II. Homilia da Missa junto ao monte Songa, 6 de setembro de 1990.

[4] CNBB. Orientações Pastorais sobre o Matrimônio, Doc. 12, 1978.

[5] João Paulo II, Discurso ao Conselho Pontifício da Família, 10 de outubro de 1986, n. 4.

[6] Poderíamos acrescentar muitos testemunhos de pessoas que chegaram inclusive a gestos heroicos como Gianna Beretta Mola, canonizada em maio de 2004.

[7] Projeto de Evangelização

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