domingo, 4 de julho de 2010

Apologética - O Evangelho segundo os evangélicos

Apologética

O Evangelho segundo os evangélicos

Por Martín Zavala M.P.

INTRODUÇÃO

Ao ver o título deste texto posivelmente alguns poderíam pensar que se trata de algo ofensivo, mas não é assim. O objetivo desta instrução não é atacar nem ofender aos nossos irmãos evangélicos. Meu desejo é simplesmente mostrar a Verdade do Evangelho tal como é, num ambiente ecuménico, de amor ao irmão e de amor à Verdade.

Jesus Cristo disse: "A Verdade os fará livres." Jo 8,32 e é essa verdade a que queremos proclamar sem comentários, nem interpretações, nem agregados. Queremos proclamar o Evangelho completo do Nosso Salvador e Senhor Jesus Cristo.

Se você for evangélico compare todas as passagens que damos da tua mesma Bíblia , a Reina Valera (buscar el nombre de esa edición em portugués), que é a que usamos neste texto, y reza pra que Deus te ilumine y te guie até a verdade plena. Se você for católico, agradece a Deus e reza para que você viva como um auténtico cristão seguindo o Evangelho de Jesus Cristo. Neste texto, você entenderá como o que muitos irmãos separados proclamam em folhetos, rádio e televisão é, senão, o Evangelho segundo os "evangélicos". Na coluna da esquerda estão as frases comuns de muitos evangélicos e na direita o que realmente diz a Sagrada Escritura.

São as 12 verdades do Evangelho, que como auténticos cristãos, devemos conhecer.

Os "evangélicos" dizem:

1.- Já estou salvado e se morro vou pro céu, nao posso perder a salvação.

O Evangelho ensina:

1.- "Mas aquele que persevere até o final, esse se salvará" Mt 24,13

Os "evangélicos" dizem:

2.- Sou salvado somente pela fé, nem as obras nem a obediencia nos salvam.

O Evangelho ensina:

2.- "Não todos aqueles que me dizem: Senhor, Senhor, entrarão no Reino dos Céus: mas, sim aquele que fizer a vontade do meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, mas nós não profetizamos em teu nome, e em teu nome lançamos demonios, e em teu nome fizemos muitos milagros?

E então lhes protestarei: "Nunca os conhecí; apártense de mim, servidores do mal." Mt 7,21-23

"E quando o Filho do homem venha em sua glória, e todos os santos anjos com Ele, então se sentará sobre o trono da sua glória. E serão reunidas frente a Ele todas as gentes: e os separará uns dos outros, como separa o pastor as ovelhas das cabras. E colocará as ovelhas a sua direita, e as cabras a sua esquerda. Então o Rei dirá aos que estão a sua direita: Venham, abençoados do meu Pai, entren no reino preparado para vocês desde a fundação do mundo. Porque tive fome, e me destes de comer, tive sede, e me destes de beber; fui hóspede, e me aconchegastes; estive sem abrigo e me cubristes; doente, e me visitastes; preso, e viesteis a mim." Mt 25,31-36

Os "evangélicos" dizem:

3.- Cristo não está presente na Eucaristía, isso é somente algo simbólico.

O Evangelho ensina:

3.- "Eu sou o pão vivo que desceu do céu: se alguém come deste pão, viverá para sempre; e o pão que lhes darei é minha carne, a qual darei pela vida do mundo." Então os judeus discutiam entre eles, dizendo: " Como pode este dar a sua carne para comer?" Jo 6,51-52

"E Jesus lhes disse: Na verdade, na verdade lhes digo: Se não comes a carne do Filho do homem, e não bebes seu sangue, não terás vida en vós. Aquele que come minha carne e bebe meu sangue, tem vida eterna: e eu o ressucitarei no último dia. Porque minha carne é verdadeira comida, e meu sangue é verdadeira bebida. Aquele que come minha carne e bebe meu sangue, permanece em mim, e eu nele." Jo 6,53-56

"E muitos dos seus discípulos escutando-o, disseram: Dura é está palavra: quem pode ouví-la?"   Jo 6,60

"Desde isto, muitos dos seus discípulos voltaram para tras, e já não andavam com Ele".  Jo 6,66

"Disse então Jesus aos doze: Querem voltar atrás também? E respondendo-lhe Simão Pedro: Senhor, a quem iremos? Vocé têm palabras de vida eterna." Jo 6,67-68

Os "evangélicos" dizem:

4.- Tenho que me confessar direto com Deus, não com homens pecadores.

O Evangelho ensina:

4.- "Então lhes disse Jesus outra vez: Paz a vós: como me enviou o Pai, assim também eu os envio. E como disse isso, soprou, e disse-lhes: Recebam o Espírito Santo: Aos que perdoais os pecados, ficam perdoados: e a quem lhes reterais, serão retidos." Jo 20,21-23

"Na verdade lhes digo que tudo o que vocês ligarem aqui na terra, será ligado no céu, e tudo o que desligarem na terra, será desligado no céu." Mt 18,18

Os "evangélicos" dizem:

5.- Não tenho que chamar de "Pai a ninguém", a Bíblia me proíbe.

O Evangelho ensina:

5.- "Então Ele, dando sua voz , disse: Pai Abraham, tem misericordia de mim, e envia a Lázaro que molhe a ponta do seu dedo em água, e refresque minha língua; porque sou atormentado nesta chama." Lc 16,24

"Conheces os mandamentos: Não mates, não cometas adultério, não cometas roubo, não des falso testemunho. Honra ao teu pai e a tua mãe." Lc 18,20

"Me levantarei, e irei ao meu pai e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e contra ti." Lc 15,18

Os "evangélicos" dizem:

6.- Tudo está escrito na Bíblia,se não está, não vale.

O Evangelho ensina:

6.- "E tem também outras muitas coisas que fez Jesus, que se fossem escritas cada uma delas, não caberiam no mundo tantos livros que se haveriam de escrever. Amén." Jo 21,25

"E lhes disse: Vão por todo o mundo; prediquem o Evangelho a toda criatura." Mc 16,15

"E eles, saindo, predicaram em todas partes, obrando". Mc 16,20

Os "evangélicos" dizem:

7.- Não temos que batizar as crianças, elas não necessitam. Aliás, se deve fazer a imersão em um rio porque Jesus Cristo recebeu o Espírito Santo quando desceu na água.

O Evangelho ensina:

7.- " Respondeu Jesus: Na verdade, na verdade, te digo, que o que não nasce da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne, carne é; e o que é nacido do Espírito, espírito é." Jo 3,5-6

"E logo, saindo da água, viu abrirse os céus, e ao Espírito como pomba, que descía sobre Ele" Mc 1,10.

Os "evangélicos" dizem:

8.- Maria é uma mulher como as outras, não deve ser venerada pois a Bíblia não a menciona.

O Evangelho ensina:

8.- "E entrando o anjo onde estava, disse, ¡Ave, favorecidíssima! O Senhor esteja contigo: bendita tú es entre as mulheres ". Lc 1,28

"E aconteceu, que como escutou Elizabet o cumprimento de Maria, a criatura pulou em seu ventre; e Elizabet ficou cheia do Espírito Santo, E exclamou em alta voz, e disse: Bendita tú es entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre". Lc 1,41-42

"Porque aqui, desde agora me dirão bem-aventurada todas as gerações". Lc 1,48

Os "evangélicos" dizem:

9.- Maria não pode fazer nada porque está morta igual aos santos, e aliás a Bíblia não diz que ela possa interceder por nós.

O Evangelho ensina:

9.- "Eu sou o Deus de Abraham, e o Deus de Isaac, e o Deus de Jacob? Deus não é Deus dos mortos, senão dos vivos." Mt 22,32

"E lhes apareceu Elías com Moisés, que conversavam com Jesus." Mc 9,4

"E faltando o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Vinho não tem. Y disse-lhe Jesus: Que tenho eu contigo, mulher? Ainda não ha chegado minha hora. Sua mãe disse aos que serviam: Façam tudo o que lhes diga... E como o mestre-sala gostou da água feita vinho". Jo 2,3-9

Os "evangélicos" dizem:

10.- Não se deve dizer as mesmas palabras ao rezar, como no terço. Repetir não é bíblico.

O Evangelho ensina:

10.- "E (Jesus) voltando a irse, orou, repitindo as mesmas palavras." Mc 14,39

Os "evangélicos" dizem:

11.- Todos os apóstolos foram iguais. Isso sobre o Papa é um invento que não está na Bíblia. Pedro foi igual que os onze.

O Evangelho ensina:

11.- "E lhe trouxe a Jesus. E olhando-o, Jesus, disse: Tú es Simão, filho de Jonás: tú serás chamado Cephas (que quer dizer, Pedra)". Jo 1,42

"Mas eu também te digo, que tú es Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha igreja; e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E a ti darei as chaves do reino dos ceús; e tudo o que ligares na terra será ligado nos ceús; e tudo o que desligares na terra será desligado nos ceús." Mt 16,18-19

"Disse também o Senhor: Simão, Simão, olha que Satanás pediu para crivaros como o trigo; mas eu roguei por ti para que tu fé não falte: e tú, uma vez de volta, confirma aos teus irmãos." Lc 22,31-32

"E veio e os encontrou durmindo; e disse a Pedro: Simão, dormes? Não velastes uma hora?"  Mc 14,37

"E quando comeram, Jesus disse a Simão Pedro: Simão, filho de Jonás, me amas mais que estes? Disse-lhe; Sim Senhor: tú  sabes que te amo. Disse-lhe: Apascenta meus corderos. Volta a dizer-lhe a segunda vez: Simão, filho de Jonás, me amas? Respondeu-lhe: Sim, Senhor: tú sabes que te amo. Disse-lhe: Apascenta minhas ovelhas. Disse-lhe a terceira vez: Simão, filho de Jonás, me amas? Entristeceu-se Pedro de que le dissesse por terceira vez: Me amas? y disse-lhe: Senhor, tú sabes todas as coisas; tú sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta minhas ovelhas." Jo 21,15-17

Os "evangélicos" dizem:

12.- A Igreja nao importa, somente Cristo salva. É a mesma coisa estar em qualquer uma. O único necesario é aceitar a Cristo, não a Igreja.

O Evangelho ensina:

12.- " Aquele que os escuta, a mim escuta; e aquele que os despreza, a mim despreza; e aquele que a mim despreza, despreza aquele que me enviou." Lc 10,16

"Aquele que recebe a vocês, a mim me recebe; e aquele que a mim recebe, recebe ao que me enviou." Mt 10,40

"Por tanto, se teu irmão peca contra ti, vai, e redarguie-lhe entre ti e ele só: se te escuta, ganhaste ao teu irmao. Mas se não te escuta, consegue-te dois mais, para que na boca de dois ou de treis testemunhos conste toda palavra. E se não escuta a estes, diga a Igreja: e se não escutar a Igreja, considera-o como ético e publicano." Mt 18,15-17

"Mas eu também te digo, que tú es Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha igreja; e as portas do inferno não prevalecerão contra ela." Mt 16,18

Assim que, em frente irmão. É tempo de nos decidir a aceitar o Evangelho Completo de Jesus Cristo tal como está e não adaptá-lo segundo o gosto de cada um.

Jesus Cristo disse:

"Qualquer um, pois, que escutar estas palavras, e as pratica, o compararei a um homem prudente, que edificou sua casa sobre a Rocha"
Mt 7,24

Se você é evangélico, esse é o convite por parte do Nosso Senhor. Se você é católico, esse é o convite por parte do Nosso Senhor. Vive-o para ser um auténtico cristão.

Da minha parte, como católico, em vez do credo dos grupos evangélicos, melhor prefiro o ensinamento do Evangelho. Mesmo que ao dizer isto aconteça como o Apóstolo Paulo disse:

"Me hei tornado enemigo de vocês por haver dito a verdade?" Gal 4,16

Que a Virgem Maria interceda por cada um de nós para que sejamos fiéis ao Evangelho do seu Filho Jesus Cristo e ser fiéis a Igreja que Ele fundou: a Católica.

Autor Martín Zavala, Misioneros de la Palabra www.defiendetufe.org y librería Misión 2000 www.defiendetufe.com

Deus continue te abençoando em abundância.

Por que nem todas as religiões são iguais?

Por que nem todas as religiões são iguais?

Pensa-se que todas as religiões são boas. Todas —salvo degenerações estranhas que são como a exceção que confirma a regra— levam a homem a fazer coisas boas, exaltam sentimentos positivos e satisfazem em maior ou menor medida a necessidade de transcendência que todos temos. No fundo, dá igual uma ou outra. Além disso, por que não pode haver várias religiões verdadeiras?

É certo que alguém tem que ser de espírito aberto, e apreciar tudo o que é positivo que há nas diversas religiões, que é substancialmente diferente que dizer que existem várias religiões verdadeiras: se somente houver um Deus, não pode haver mais que uma verdade divina, e uma só religião verdadeira.

A sensatez na decisão humana sobre a religião não estará, portanto, em escolher a religião que a um goste ou lhe satisfaça mais, mas sim em acertar com a verdadeira, que só pode ser uma. Porque uma coisa é ter uma mente aberta e outra, bem distinta, pensar que cada um pode fazer uma religião a seu gosto, e não se preocupar muito posto que todas vão ser verdadeiras. Já disse Chesterton que ter uma mente aberta é como ter a boca aberta: não é um fim, a não ser um meio. E o fim —dizia com senso de humor— é fechar a boca sobre algo sólido.

Como cristão que sou, acredito que o cristianismo é a religião verdadeira. Porque se a gente não acredita que sua fé é a verdadeira, o que lhe acontece então, simplesmente, é que não tem fé.

Logicamente, acreditar que o cristianismo é a religião verdadeira não implica impô-la a outros, nem menosprezar a fé de outros, nem nada parecido. É mais, a fé cristã bem entendida exige esse respeito à liberdade de outros.

Agora bem, a adesão à verdade cristã não é como o reconhecimento de um princípio matemático. A revelação de Deus se desdobra como a vida mesma, e toda verdade parcial não tem por que ser um completo engano.

Muitas religiões terão uma parte que será verdade e outra que conterá enganos (exceto a verdadeira, que, logicamente, não conterá enganos). Por esta razão, a Igreja Católica —recordando o Concílio Vaticano II— nada rechaça do que em outras religiões tem de verdadeiro e santo. Considera com sincero respeito os modos de trabalhar e de viver, os preceitos e doutrinas que, embora discrepem em muitos pontos do que ela professa e ensina, não poucas vezes refletem um brilho daquela Verdade que ilumina a todos os homens.

E por que a religião cristã vai ser a verdadeira?

Para responder esta pergunta, pode-se contribuir com provas sólidas, racionais e convincentes, mas nunca serão provas esmagadoras e irresistíveis. Além disso, nem todas as verdades são demonstráveis, e menos ainda para quem entende por 'demonstração' algo que tem que estar atado infalivelmente à ciência experimental.

Digamos —não é muito acadêmico— que é como se Deus não queria nos obrigar a acreditar. Deus respeita a dignidade da pessoa humana, que Ele mesmo criou, e que deve reger-se por sua própria determinação. Deus jamais coage (além disso, se fosse algo tão evidente como a luz do sol, não faria falta demonstrar nada: nem você estaria lendo isto nem eu agora o escrevendo).

Para acreditar, faz falta uma decisão livre da vontade: a fé é de uma vez um dom de Deus

E um ato livre. E ninguém se rende diante de uma demonstração não totalmente evidente (alguns, nem sequer diante das evidentes), se houver uma disposição contrária da vontade.

Neste caso, sugiro, para compreensão da leitura, comentar algumas das razões que podem fazer compreender melhor porque a religião cristã é a verdadeira. Não pretendo fazê-lo de modo exaustivo nem tremendamente rigoroso: trata-se simplesmente de lançar um pouco de luz sobre o assunto, resolvendo algumas duvida, ou fortalecendo convicções que já se tem: só tento fazer mais verossímil a verdade.

Um surpreendente desenvolvimento

Podemos começar, por exemplo, por considerar o que tem suposto o cristianismo na história da humanidade. Pensem como, nos primeiros séculos, a fé cristã se abriu caminho no Império Romano de forma prodigiosa. O cristianismo recebeu um tratamento tremendamente hostil. Houve uma repressão brutal, com perseguições sangrentas, e com todo o peso da autoridade imperial em seu contrário durante muitíssimo tempo (uns dois séculos).

É necessário pensar também que a religião então predominante era um amálgama de cultos idolátricos, enormemente indulgentes, em sua maior parte, com todas as debilidades humanas. Tal era o mundo que deviam transformar. Um mundo cujos dominadores não tinham interesse algum em que trocasse. E a fé cristã se abriu passo sem armas, sem força, sem violência de nenhuma classe. E, em que pese a essas objetivas dificuldades, os cristãos eram cada vez mais.

Obter que a religião cristã se enraizasse, estendesse e perpetuasse; obter a conversão daquele enorme e poderoso império, e trocar a face da terra dessa maneira, e tudo a partir de doze pregadores pobres e ignorantes, deficientes de eloqüência e de qualquer prestígio social, enviados por outro homem que havia sido condenado a morrer em uma cruz, que era a morte mais vergonhosa daqueles tempos... Sem dúvida para o que não acredita nos milagres dos evangelhos, pergunto-me se não seria este milagre suficiente. Algo absolutamente singular na história da humanidade.

Jesus de Nazaré

Entretanto, pergunta-a básica sobre a identidade da religião cristã se centra em seu fundador, em quem é Jesus de Nazaré.

O primeiro traço característico da figura de Jesus Cristo —assinala André Léonard— é que afirma ser de condição divina. Isto é absolutamente único na história da humanidade. É o único homem que, em seu são julgamento, reivindicou ser igual a Deus. E recalco o de reivindicado porque, como veremos, esta pretensão não é em modo algum sinal de jactância humana, mas sim, ao contrário, vai acompanhada da maior humildade.

Os grandes fundadores de religiões, como Confúcio, Lao-Tse, Buda e Maomé, jamais tiveram pretensões semelhantes. Maomé dizia profeta de Alá, Buda afirmou que tinha sido iluminado, e Confúcio e Lao-Tse pregaram uma sabedoria. Entretanto, Jesus Cristo afirma ser Deus.

Os gestos de Jesus Cristo eram propriamente divinos. O que de entrada surpreendia e alegrava as pessoas era a autoridade com que falava, por cima de qualquer outra, até da mais alta, como a de Moisés; e falava com a mesma autoridade de Deus na Lei ou dos Profetas, sem referir-se mais que a si mesmo: "ouvistes que se disse..., Mas eu lhes digo..." Através de seus milagres manda sobre a doença e a morte, dá ordens ao vento e ao mar, com a autoridade e o poderio do Criador mesmo.

Entretanto, este homem, que utiliza o eu com a audácia e a pretensão mais insustentáveis, possui ao mesmo tempo uma perfeita humildade e uma discrição cheia de delicadeza. Uma humilde pretensão de divindade que constitui um fato singular na história e que pertence à essência própria do cristianismo.

Em qualquer outra circunstância —pense-se de novo em Buda, em Confúcio ou em Maomé— os fundadores de religiões lançam um movimento espiritual que, uma vez posto em marcha, pode desenvolver-se com independência deles. Entretanto, Jesus Cristo não indica simplesmente um caminho, não é o portador de uma verdade, como qualquer outro profeta, mas sim é Ele mesmo o objeto próprio do cristianismo.

Por isso, a verdadeira fé cristã começa quando um fiel deixa de interessar-se pelas idéias ou a moral cristãs, tomadas em abstrato, e encontra Ele como verdadeiro homem e verdadeiro Deus.

Quando se trata de discernir entre o verdadeiro e o falso, e em algo importante, como o é a religião, convém aprofundar o bastante. A religião verdadeira será efetivamente a de maior atrativo, mas para quem tem dela um conhecimento suficientemente profundo.

Pode alguém se salvar com qualquer religião?

A verdade sobre Deus é acessível ao homem na medida em que este aceite deixar-se levar por Deus e aceite o que Deus ordena; na também em que o homem queira procurar Deus retamente. Por isso, é um barbarismo dizer que os que não são cristãos não procuram Deus retamente. Há gente reta que pode não chegar a conhecer Deus com completa claridade. Por exemplo, por não ter conseguido libertar-se de uma certa cegueira espiritual. Uma cegueira que pode ser herdada de sua educação, ou da cultura em que nasceu, e nesse caso, Deus que é justo, julgará a cada um pela fidelidade com que tenha vivido conforme a suas convicções. É preciso, logicamente, que ao longo de sua vida tenham feito o que esteja em sua mão por chegar ao conhecimento da verdade. E isto é perfeitamente compatível com que haja uma única religião verdadeira.

Nesta linha, a Igreja católica destaca que os que sem culpa de sua parte não conhecem o Evangelho nem a Igreja, mas procuram Deus com sincero coração e tentam em sua vida fazer a vontade de Deus, conhecida através do que lhes diz sua consciência, podem conseguir a salvação eterna.

E como assegura Peter Kreeft, o bom ateu participa de Deus precisamente na medida em que é bom. Se alguém não acreditar em Deus, mas participa de alguma medida do amor e a bondade, vive em Deus sem sabê-lo. Isto não significa, entretanto, que basta sendo bom sem necessidade de acreditar em Deus para obter a salvação eterna. A pessoa não deve acreditar em Deus porque nos seja útil, ou porque nos permita sermos bons, mas sim, fundamentalmente, porque acreditam que Deus é verdadeiro.

Nesta linha terá que nos mostrar um tanto céticos diante de algumas crise de fé supostamente intelectuais, mas que no fundo escondem uma opção por fabricar uma religião própria, à medida dos próprios gostos ou comodidades. Quando uma pessoa faz uma interpretação acomodada de sua religião para rebaixar assim suas exigências morais, ou não se preocupa em receber a necessária formação religiosa adequada a sua idade e circunstâncias, é bem provável que a pretendida crise intelectual bem possa ter outras origens.

Por que, então, a Igreja é necessária para a salvação do homem?

A Igreja peregrina é necessária para a salvação, pois Cristo é o único Mediador e o caminho de salvação, presente a nós em seu Corpo, que é a Igreja» (Lumen gentium, 14).

Seguindo a Dominus Iesus, esta não se contrapõe à vontade salvífica universal de Deus; portanto, «é necessário, pois, manter unidas estas duas verdades, ou seja, a possibilidade real da salvação em Cristo para todos os homens e a necessidade da Igreja em ordem a esta mesma salvação» (Redemptoris missio, 9). Para aqueles que não são formal e visivelmente membros da Igreja, «a salvação de Cristo é acessível em virtude da graça que, até tendo uma misteriosa relação com a Igreja, não lhes introduz formalmente nela, mas sim os ilumina de maneira adequada em sua situação interior e ambiental. Esta graça provém de Cristo; é fruto de seu sacrifício e é comunicada pelo Espírito Santo» (ibid, 10).

Certamente, as diferentes tradições religiosas contêm e oferecem elementos de religiosidade, que formam parte de «tudo o que o Espírito obra nos homens e na história dos povos, assim como nas culturas e religiões» (Redemptoris missio, 29). A elas, entretanto, não lhes pode atribuir uma origem divina nenhuma eficácia salvífica ex opere operato, que é própria dos sacramentos cristãos. Por outro lado, não se pode ignorar que outros ritos não cristãos, assim que dependem de superstições ou de outros enganos (cf. 1 Cor 10, 20-21), constituem mas bem um obstáculo para a salvação.

Neste sentido, a Dominus Iesus é bastante clara quando afirma que com a vinda de Jesus Cristo Salvador, Deus estabeleceu à Igreja para a salvação de todos os homens. Esta verdade de fé não tira o fato de que a Igreja considera as religiões do mundo com sincero respeito, mas ao mesmo tempo exclui essa mentalidade de indiferença «marcada por um relativismo religioso que termina por pensar que "uma religião é tão boa como outra"» (Redemptoris missio, 36). Como exigência do amor a todos os homens, a Igreja «anuncia e tem a obrigação de anunciar constantemente a Cristo, que é "o Caminho, a Verdade e a Vida" (Jo 14, 6), em quem os homens encontram a plenitude da vida religiosa e em quem Deus reconciliou consigo todas as coisas» (Nostra aetate, 2).

João Paulo II nunca pediu sedativos e abraçou sempre a dor

João Paulo II nunca pediu sedativos e abraçou sempre a dor, explica seu médico

O Papa era um paciente dócil, atento, desejoso de conhecer seus males para curar-se logo e voltar a trabalhar, comenta

ROMA, 18 Mai. 10 / 10:21 am (ACI).- Em uma entrevista concedida ao L’Osservatore Romano, o doutor italiano Renato Buzzonetti, atual médico de Bento XVI, relata como era sua relação e muitas das vivências com seu querido predecessor, João Paulo II, desde que o Papa Peregrino decidiu que o Dr. Buzzonetti se encarregasse de sua saúde em 1978. Recorda, entre muitas outras coisas, alguns detalhes do atentado de 13 de maio de 1981, sua disposição a abraçar o Senhor na cruz da dor e os últimos momentos de sua vida.
O médico recorda que depois das cinco horas da cirurgia à qual teve que ser submetido logo depois de receber uma bala na Praça de São Pedro em 13 de maio de 1981, João Paulo II lhe disse: "Tal como Bachelet". Ao que ele respondeu: "não, Santidade, porque você está vivo e viverá". Buzzonetti prossegue: "acredito que citou aquele sobrenome porque foi muito tocado pelo assassinato do vice-presidente do Conselho superior da magistratura, morto pelas Brigadas Vermelhas em 12 de fevereiro de 1980: o Papa o conhecia porque, já sendo Presidente Geral da Ação Católica Italiana, era membro do Pontifício Conselho para os Leigos, do qual o Cardeal Wojtyla tinha formado parte. E por Victorio Bachelet ele quis celebrar uma solene Missa de sufrágio em São Pedro poucos dias depois de sua morte". Depois de ressaltar a profunda e impactante espiritualidade do Papa polonês, o médico se refere ao Parkinson que o afetou desde 1991. Tinha explicado que o tremor nas mãos "nunca matou ninguém antes" mas era uma clara indicação desta doença. "A vida do Papa foi logo mais complicada pela sintomatologia dolorosa ósseo-articular, particularmente importante no joelho direito, que impedia João Paulo II estar de pé e caminhar agilmente. Eram dois sintomas que, somados e entrelaçados, fizeram necessários o uso de fortificação, e posteriormente da cadeira de rodas".

Perante a dor e os impedimentos, conta Buzzonetti, Karol Wojtyla "nunca pediu sedativos, nem sequer na fase final. Era sobre tudo a dor de um homem confinado, prostrado em uma cama ou uma cadeira, que tinha perdido a autonomia física. Não podia fazer nada sozinho e chegaram os dias de total debilidade física: não podia caminhar, não podia falar mais que com uma voz muito fraca, sua respiração se fez fatigante e entrecortada, nutria-se com crescente dificuldade".
"Quando chegou a ora da cruz, soube abraçá-la sem atenuantes: Vexilla regis prodeunt (a todo vento as bandeiras reais ondeiam)".
Seguidamente relata que um momento particularmente dramático dos últimos dias do Papa peregrino foi o que seguiu a traqueotomia que teve que realizar: "levantando-se depois da anestesia, logo depois de ter dado seu consentimento, percebeu que não podia falar. De improviso se encontrou ante uma realidade pesadíssima. Sobre uma tabuinha escreveu ‘O que fizeram comigo. Totus tuus (Todo teu, seu lema Mariano)’ Era a toma de consciência da nova condição existencial na que acabava de cair, de repente sublimado pelo ato de confiança em Maria".

Os últimos dias de João Paulo II, que passou em intensa comunhão com ele, foram para Buzzonetti "de uma tensão extrema pela grande responsabilidade que pesava sobre minhas costas". "Eu e meus colegas constatávamos que a enfermidade estava inexoravelmente na última fase de seu curso. Nossa batalha tinha sido conduzida com paciência, humildade e prudência, extremamente difícil porque sabíamos que concluiria com a derrota". Renato Buzzonetti quis alguma vez deixar de servir ao Papa como seu médico, mas não aceitou a renúncia. "É a vontade do Santo Padre" que você siga sendo, disse alguma vez o atual Arcebispo de Cracóvia, Cardeal Stanislaw Dziwisz, quando era secretário pessoal do Santo Padre, pedido que acolheu com solicitude e obediência.
Depois de comentar que acompanhavam com "respeito o homem sofredor", sublinha que "para o médico cristão a agonia do homem é a imagem do Senhor. Todo homem tem suas chagas, leva sua coroa de espinhos, balbucia suas últimas palavras, abandona-se nas mãos de algum que inconscientemente renova o gesto de Maria, das piedosas mulheres, de José de Arimatéia. A morte de João Paulo II me envolveu ainda mais". Ao finalizar a entrevista, o Dr. Renato Buzzonetti afirma que o trânsito do Papa Wojtyla "foi a morte de um homem despojado de tudo, que tinha vivido as horas da batalha e da glória e que se apresentava em sua nudez interior, pobre e sozinho, ao encontro de seu Senhor ao que estava por restituir as chaves do Reino. Naquela hora de dor e estupor, tive a sensação de me encontrar nas bordas do lago Tiberíades. A história parecia reajustada, enquanto Cristo estava por chamar o novo Pedro".

Tenha cuidado. Para quem vai o seu voto nas eleições de 2010?

Vale lembrar, para quem não sabe, que o "QG do Comando do II Exercito", no Ibirapuera, chama-se "Sargento Mario Kosel Filho".

Mário Kosel Filho nasceu em 6 de julho de 1949, em São Paulo. Era filho de Mário Kosel e Therezinha Vera Kosel. Fazia parte do Grupo Juventude, Amor, Fraternidade, organizado pelo Padre Silveira, da Paróquia Nossa Senhora da Aparecida, no bairro de Indianópolis, juntamente com mais de 30 jovens.

O símbolo do grupo, ironicamente idealizado por Mário, era uma rosa e um violão. Por ser muito prestativo e preocupado em ajudar as pessoas, principalmente crianças e necessitados, foi apelidado de Kuka, pelos demais participantes do grupo.

Mário tinha 19 anos e prestava o serviço militar. Estava incorporado na 5ª Cia. de Fuzileiros do 2º Batalhão, no 4º Regimento de Infantaria Raposo Tavares, em Quitaúna.


Na madrugada de 26 de junho de 1968 estava no quartel, em serviço, quando ouviu um tiro, disparado pelo soldado Rufino, que fazia a guarda externa do quartel. Saiu para ver o que se passava e foi informado pelo soldado Rufino que o tiro fora dado para cima, para advertir um automóvel que, em alta velocidade, rompera a barreira da área proibida ao tráfego de veículos. O motorista do automóvel deve ter se assustado e colidiu com um poste. Mário, preocupado em ajudar possíveis feridos, foi até o local do acidente. Ao se aproximar do automóvel acidentado, um outro automóvel passou pelo local e seus ocupantes lançaram sobre o automóvel acidentado uma bomba de grande poder destrutivo.

Mário teve morte instantânea, pedaços de seu corpo foram lançados em todas as direções.

Um dos ocupantes do segundo automóvel era Dilma Rousseff.

Não consigo entender como é possível uma assassina permanecer solta e ainda chegar aonde essa mulher chegou. Dilma e outros criminosos e assassinos, que deveriam estar nas penitenciárias, relaxam e gozam sem quaisquer preocupações, enquanto os ladrões de galinhas sofrem severas penalidades.

Agora, a exemplo do que fizeram com Lula, os marqueteiros vão tentar vender a imagem de paz e amor dessa assassina.

Ainda assim, enquanto eu viver, não me calarei, até que todos saibam.

Mário Kosel e Therezinha Vera Kosel

O flagelo das drogas

Droga

Depoimentos dramáticos de quem luta contra o crack

Antes restrita a indigentes que perambulam pelo centro, o crack hoje é consumido por paulistanos de todas as classes sociais

As histórias contadas por usuários e ex-usuários de crack são chocantes. Sempre. Quem cai nas teias dessa droga derivada da cocaína tem em um curto espaço de tempo a saúde devastada, as relações sociais destruídas e a vida destroçada. São depoimentos crus, sem meias palavras, que humanizam estatísticas cada vez mais alarmantes. Dados da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) mostram um crescimento de 42% no número de viciados em crack que procuraram tratamento entre 2005 e 2009 no Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad).

Os relatos têm suas evidentes particularidades, mas se parecem ao mostrar que o usuário mergulha em total perda de contato com a realidade e em uma tamanha dependência que nada, absolutamente nada, é mais importante do que a próxima pedra a ser fumada. Emprego, amigos e família (pais, cônjuge e até os próprios filhos) desabam na escala de valor de quem está possuído pela droga. “O crack é a droga da amoralidade. Faz o usuário virar um homem de Neandertal”, afirma o psiquiatra Pablo Roig, especialista em dependência química e dono da clínica Greenwood, em Itapecerica da Serra — lá, 60% dos pacientes internados são viciados em crack; até 2000, essa estatística beirava zero. “Na boca, tem sempre mais gente vendendo crack do que outras drogas. Parece fila do McDonald’s”, diz João, 25 anos, estudante de engenharia, filho e neto de médicos, que há um ano e dois meses tenta largar o vício na Greenwood e paga 500 reais pela diária.
A degradação acontece em uma velocidade incontrolável. Em menos de um mês, o fumante deixa de ser um ingênuo calouro em busca de novas sensações para se tornar usuário contumaz, viciado e entregue aos efeitos devastadores da droga. Ao contrário do que ocorre com a maconha, com o álcool e mesmo com a cocaína, que, apesar do perigo extremo, demoram mais para provocar danos degradantes, o crack causa prejuízos em curtíssimo espaço de tempo.
Segundo estudo do psiquiatra Ronaldo Laranjeira, da Universidade Federal de São Paulo, 30% dos dependentes de crack morrem antes de completar cinco anos de uso. “É um índice maior que o da leucemia e de outras doenças graves”, alerta. As causas dos óbitos vão além dos malefícios da droga no corpo — para conseguir saciar o vício, o usuário perde a noção do perigo e envolve-se constantemente em situações de alto risco. “Mais da metade dessas mortes foi decorrente de confrontos com traficantes ou policiais.” A destemida busca pelo crack é acarretada pelo seu elevado e incomparável potencial viciante. “É raríssimo encontrar alguém que o use apenas social e esporadicamente”, diz a psicóloga Fátima Padin, especialista em dependência química e proprietária da Clínica Alamedas, nos Jardins. “Quem prova uma vez fatalmente vai querer usar de novo e de novo e de novo.” A sujeição cega deve-se ao imediatismo de seu efeito.
Números que assustam
Morte anunciada: Um em cada três usuários de crack morre nos primeiros cinco anos de consumo da droga, segundo estudo da Unifesp. Veja as principais causas da morte.

42% foi o crescimento da procura de dependentes de crack pelo Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) entre 2005 e 2009

42% foi o crescimento da procura de dependentes de crack pelo Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) entre 2005 e 2009

Surgido nos Estados Unidos, o crack é, grosso modo, a cocaína em pedra, para ser fumada em cachimbos ou latas. Ao ser tragada, a droga atinge os pulmões e entra na corrente sanguínea instantaneamente, chegando ao cérebro em menos de dez segundos, ao contrário da cocaína em pó, que leva cerca de dez minutos para fazer o trajeto. “Ao tragar, o barato é instantâneo. E, para piorar, curto”, conta o psiquiatra Jorge César Gomes de Figueiredo, da clínica Vitória, em Embu, a 30 quilômetros da capital. “Você sempre quer mais e mais”, confirma Gabriel Mori, há pouco mais de três anos “limpo” — termo usado pelos viciados para definir os abstinentes. Morador do Butantã, Mori, 26 anos, empresário, é o retrato da realidade ainda pouco conhecida no universo do crack.
Antes relegada às classes mais baixas e simbolizada pela Cracolândia, no centro da cidade, a droga na última década ascendeu socialmente e passou a atingir em cheio as classes A e B. Dados da Secretaria Estadual de Saúde apontam que, entre 2006 e 2008, o número de usuários com renda familiar acima de 10 000 reais aumentou 139,5%. Não há estatísticas mais recentes, mas em clínicas especializadas na recuperação de dependentes químicos o sinal vermelho se acendeu faz tempo.
Os “craqueiros” são maioria em vários centros de recuperação visitados pela reportagem. Na década passada, eles não chegavam a 10%, segundo os donos das clínicas. “Quem se vicia no crack praticamente larga as outras drogas”, diz o psicólogo Sérgio Duailibi, diretor administrativo da Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas (Uniad). “Para diminuir a fissura, vez ou outra, o usuário mistura o crack com a maconha ou com a bebida”, afirma Solange Nappo, pesquisadora e professora de psicobiologia da Unifesp. A “tática” de misturar o crack à maconha (chamada pitilho, ou piti) pode, por outro lado, fazer com que ele subestime o poder da droga.
Nas páginas policiais, o crack também ganhou espaço na última década. De 2006 a 2009, a apreensão da droga pelo Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc) subiu de 450 para 1 123 quilos, um aumento de 150%. Porcentualmente em relação às demais drogas, o número de apreensões ainda é baixo (2,6%), mas é preciso colocar na conta boa parte da cocaína apreendida, já que o crack é produzido a partir da pasta-base da coca ou da cocaína em pó. Os traficantes, como bons comerciantes, perceberam que vale a pena diversificar o leque de produtos. Hoje, o crack está presente em qualquer ponto de venda de droga.
Números que assustam
O governo federal promete investir 90 milhões de reais para dobrar de 2 500 para 5 000 o número de leitos para dependentes químicos em hospitais do SUS.
10 reais é o preço de uma pedra de aproximadamente 5 gramas, suficiente para três tragadas.

600 000 pessoas fumam crack hoje no Brasil, segundo estimativa do Ministério da Saúde. Em 2005, esse número era de 380 000. O aumento foi de 58%

600 000 pessoas fumam crack hoje no Brasil, segundo estimativa do Ministério da Saúde. Em 2005, esse número era de 380 000. O aumento foi de 58%

Enquanto o diretor do Denarc, o delegado Marco Antonio de Paula Santos, afirma que a maconha sumiu do mercado por causa das seguidas apreensões, Solange acredita que se trata de uma estratégia do tráfico para empurrar o crack goela abaixo dos usuários. “O fato é que o tráfico está nas mãos do crime organizado”, diz Santos. “E eles perceberam que o crack, mesmo barato, pode ser mais rentável que as outras drogas.” Segundo o delegado, o combate ao pequeno traficante não resolve a questão. “É um tráfico pulverizado. Podemos ir a vários pontos de venda de crack e prender vinte, trinta pessoas. Além de a maioria não ficar presa, outras vinte, trinta pessoas vão estar ali no lugar delas no dia seguinte.”
O crescimento desenfreado do crack motivou — com um atraso de pelo menos uma década — um plano de tratamento e combate à droga lançado pelo governo federal no último dia 20. Na verdade, trata-se de uma reedição do programa anunciado em junho do ano passado, que não saiu do papel por “falta de dinheiro”, segundo palavras da secretária executiva do Ministério da Saúde, Márcia Bassit Lameiro. A promessa desta vez é investir 410 milhões de reais, sendo 90 milhões para dobrar de 2 500 para 5 000 o número de leitos para dependentes químicos no Sistema Único de Saúde (SUS). O programa também inclui, entre outras ações, a capacitação de professores da rede pública sobre o tema, a construção de abrigos e de centros para orientar usuários, que neles poderão descansar, tomar banho e se alimentar, e a criação de consultórios de rua. São medidas necessárias, mas insuficientes para controlar uma epidemia que começou na cidade de São Paulo na década de 90 e se espalhou por todos os estados brasileiros.
Conforme mostram os relatos, os dependentes podem levar anos para superar o vício e estão sujeitos a recaídas frequentes, mesmo depois de muito tempo sem usar a droga. Ainda não há tratamentos nem remédios que impeçam que o usuário volte a fumar as pedras. “Tem de haver uma vigilância diária até o fim da vida”, afirmam, em coro, os participantes de grupos de mútua ajuda, como os Narcóticos Anônimos. Eles auxiliam os usuários a se manter firmes na decisão de ficar longe das drogas. “A recuperação tem de ser de dentro para fora e exige uma força de vontade gigante”, explica o ex-dependente João Blota, de 34 anos. Depois de consumir crack por cinco anos, ele está limpo há treze e hoje é dono de uma agência de publicidade. “Sou prova viva de que é possível sair dessa.”
Efeitos no organismo
Boca: Porta de entrada da droga, sofre com queimaduras, inflamações na gengiva, cáries e perda de dentes.
Sistema digestivo: Como o organismo passa a trabalhar em função da droga, o dependente não tem vontade de comer e emagrece muito rápido. Por isso, fica desnutrido. Úlceras gástricas e diarreias também são frequentes.
Sistema reprodutor: Quem usa crack fica mais exposto a comportamentos sexuais de risco. Pesquisa da Unicamp com 252 usuários de cocaína e crack mostrou que 20% tinham o vírus HIV e 67% dos entrevistados nunca usaram preservativo nas relações sexuais. O dependente pode perder o interesse por sexo ou apresentar impotência.
Dedos: De tanto acender o cachimbo de crack, muitos queimam os dedos a ponto de deformá-los.
Cérebro: O uso crônico leva a danos cerebrais. A droga compromete a atenção, a fluência verbal, a memória e as capacidades de aprendizagem, concentração e planejamento. Paranoias também são comuns. Se ouve um barulho, o dependente pode pensar tratar-se de um helicóptero que o está perseguindo, por exemplo. Surtos psicóticos, perda de valores éticos e agressividade são outros comportamentos observados.
Pulmões: São os primeiros órgãos expostos às substâncias do crack. Tosse por irritação dos brônquios e chiados no peito podem aparecer dentro de minutos ou após várias horas de uso. Há casos de edema pulmonar.
Sistema cardiovascular: São comuns sintomas de taquicardia, aumento da pressão arterial e até arritmias, especialmente quando a droga é combinada com álcool. Isso pode levar a um acidente vascular cerebral (AVC) ou a um infarto agudo do miocárdio, mesmo em pessoas jovens.

Crack: "Tentei matar meu irmão"

Angelo Pugliese, 29 anos, vendedor:

Angelo Pugliese, 29 anos, vendedor: "tentei matar o meu irmão"

“Depois de uma década usando cocaína, conheci o crack em 2007, quando tinha 27 anos. Não sentia vontade de fazer mais nada a não ser usar a droga. Fumava inclusive no trabalho. Nessa época, eu morava em Itu (SP) e era técnico em uma fábrica de sucos. Consumia trinta pedras num dia. Gastava de 5 a 10 reais em cada uma. Cheguei a estourar o cheque especial em cerca de 7 000 reais.
Como faltava muito ao emprego, fui demitido e minha família me internou numa clínica. Fugi depois de três dias. Quando voltei para casa, meu irmão e minha mãe me expulsaram (o pai deixou a família quando ele tinha 11 anos). Fui morar com um primo em Guarulhos. Não demorei muito para frequentar a Cracolândia. Ali, vivia perambulando pela rua e conseguia dinheiro como flanelinha. O mais importante era fumar e acalmar a fissura.
Depois de dois meses em São Paulo, voltei para minha casa em Itu. Peguei um cartão de crédito e comprei umas coisas nas Casas Bahia para trocar por droga. Nesse dia de paranoia, tomei álcool com energético misturado a várias drogas. Com raiva do meu irmão, que tinha me expulsado de casa, tentei matá-lo. Fui levado para a delegacia e depois me senti muito envergonhado. Decidi então me internar. Fiquei 52 dias e acabei de deixar a clínica (ele saiu no último dia 18).
Estou limpo há dois meses e arrumei um emprego como vendedor numa loja de motos. Por saber que tenho uma doença progressiva, incurável e fatal, frequento reuniões de grupos de dependentes anônimos. Não me considero recuperado, mas sim em recuperação. O mais importante é que meu irmão me perdoou.”
Angelo Pugliese, 29 anos, vendedor.

Crack: "Abandonei minhas duas filhas"

F.O., 29 anos, separada, auxiliar administrativa:

F.O., 29 anos, separada, auxiliar administrativa: "abandonei minhas duas filhas"

“Deixei de escovar os dentes e de tomar banho. Vivia apenas para fumar crack. Não conseguia nem cuidar das minhas filhas. Mandei a de 15 anos estudar no Canadá e a de 12 morar com o pai, em Porto Alegre.
Troquei tudo o que tinha dentro de casa pela droga: televisão, eletrodomésticos, roupas... Fumava quinze pedras por dia. Minha família, desesperada, não sabia o que fazer. Venderam meu apartamento e meu carro. Quando consegui dar um tempo, voltei a trabalhar. Mas, ao receber o primeiro salário, troquei tudo por crack. Recaí de novo. É difícil controlar a fissura.”
F.O., 29 anos, separada, auxiliar administrativa

Crack: "Em três tragos, estava viciado"

“Sou de um tempo em que usar maconha era sinal de contestação. Sempre tive uma vida boa. Filho de sociólogos, morei seis anos nos Estados Unidos. Saía do Colégio Equipe, onde estudava, e ia fumar um baseado com os amigos. Não demorou muito e experimentei cocaína, aos 17 anos.
Aos 20, virei comissário de bordo da Varig e passei a fazer voos internacionais. Cheirava carreirinhas de pó até voando, mas ninguém percebia. Era possível entrar em todos os países com a droga. Depois da quebra da Varig, fiquei sem emprego. Passei a trabalhar como tradutor e, em 2005, comprei um táxi. Circulava de madrugada e levava prostitutas para comprar droga. Um dia, uma delas me ofereceu crack. Bastaram três tragos para eu me viciar. Ia para o motel, me trancava no quarto com minha namorada e consumia umas catorze pedras.
Gostava de fumar uma enorme, chamada “juremona”, que custa 100 reais. Cheguei a gastar 500 reais num único dia. Vendi meu paraglider, que era a coisa que mais amava. Fui perseguido duas vezes por policiais e, numa delas, acabei na delegacia. Por falta de concentração, não conseguia mais traduzir textos nem tinha vontade de guiar. Internei-me pela primeira vez em novembro do ano passado. Fiquei limpo por uns quatro meses. Recaí e voltei a me internar em abril.”
A.D., 44 anos, dois filhos, tradutor, ex-comissário de bordo da Varig

Crack: "Fazia roleta-russa com um revólver calibre 22"

“Meus pais sempre foram muito rígidos. A primeira vez em que me autorizaram a viajar sozinho, fui para Maresias e experimentei maconha. Dois anos depois, cheirei cocaína. Quando a gente se mudou do Butantã para a Granja Viana, pedi ao pessoal da minha classe para não deixar de me chamar quando fossem fumar um. O problema é que logo na primeira vez me falaram que a droga era outra, o crack.
Fomos até a favela, em Carapicuíba, compramos, e eu experimentei. Em menos de dez segundos, meu corpo relaxou e comecei a suar frio. Foi uma enorme e rápida sensação de prazer. Daí você logo quer mais. No fim de semana seguinte, estávamos na favela de novo. Na terceira vez, já ia para lá sozinho. Passei um ano inteiro usando quase todos os dias. Perdi 12 quilos e fui demitido de um restaurante bacana no Itaim, onde trabalhava como chef (P.F. é formado em gastronomia pela FMU). Chegou um dia em que não queria mais usar. Mas não conseguia parar. Ia para a boca comprar chorando.
Um amigo meu se enforcou, outro pulou do prédio. Eu também queria morrer. Fazia roleta-russa com um revólver calibre 22 e cheguei a tomar uma caixa de ansiolítico. Fiquei três dias na UTI. Já tive duas recaídas, mas quero esquecer tudo isso. Estou limpo há seis meses.”
P.F., 31 anos, chef de restaurante. Ele passa o dia (9h às 18h) na Clínica Alamedas, na Alameda Franca. Paga 350 reais pela diária e mais 150 reais pelo acompanhamento de um terapeuta no período em que está fora dali

Crack: "Já passei por trinta internações"

F.A.L., 37 anos, pecuarista, separado, três filhos, internado no Instituto Bairral, uma clínica de Itapira

F.A.L., 37 anos, pecuarista, separado, três filhos, internado no Instituto Bairral, uma clínica de Itapira

“Usava cocaína desde os 17 anos. Um dia, aos 27, fui comprar pó, não tinha e me apresentaram ao crack. Foi uma substituição automática. Sempre fumei sozinho, trancado em hotéis e motéis. Uma vez, sumi e cheguei a ficar dois meses dentro de um deles. Depois que passava o efeito da droga, vinham a paranoia e a mania de perseguição. Eu via até helicóptero descendo pelas paredes para me pegar.
Fui internado várias vezes, a maioria involuntariamente, o que é péssimo. O crack é o barato que sai caro. Já gastei 300, 400 reais por dia para comprar 30 gramas. Vendi som de carro, televisão de casa, objetos pessoais, roupa. Quando você volta para a sociedade, percebe que parou no tempo, e isso é muito frustrante.
Como tenho muita dificuldade de lidar com isso, acabo recaindo. Cheguei a ficar três anos limpo, mas voltei a beber e aí adeus. Com o crack você não tem opção: ou vai para a clínica ou morre. No último dia 22 de abril, internei-me pela trigésima vez.”
F.A.L., 37 anos, pecuarista, separado, três filhos, internado no Instituto Bairral, uma clínica de Itapira

Crack: "Fumo 25 pedras por dia"

Ana, 34 anos, estudante de massoterapia:

Ana, 34 anos, estudante de massoterapia: "fumo 25 pedras por dia"

“Cometi todo tipo de loucura para conseguir crack. Pedi esmola, pegava comida no lixo e até assaltei com arma. Depois, ao me lembrar do rosto das vítimas, sempre me arrependia. Cheguei a pesar 37 quilos e até a me prostituir por duas vezes para conseguir algumas pedras.
A depressão é tão forte que tentei me matar por três vezes, uma delas em frente à minha terapeuta. Ainda bem que ela impediu. Fumo 25 pedras por dia. Estou internada desde o dia 26 de abril e está difícil ficar sem o crack.”
Ana, 34 anos, estudante de massoterapia

Crack: "Virei um noia"

M.G.O., 41, empresário, dono de postos de gasolina:

M.G.O., 41, empresário, dono de postos de gasolina: "virei um noia"

“Nasci e cresci no Itaim e sempre estudei em escolas particulares. Aos 16 anos, era um maconheiro inveterado. Não apenas por modismo, mas também porque tinha autoestima baixa e era tímido. Passei a usar cocaína e injetáveis. Descobri como se fazia crack em casa e passei a fumar.
Tive dois filhos e, em 1999, depois de tentar parar, eu me internei pela primeira vez. Fiquei limpo por mais de cinco anos, quando decidi voltar a estudar. Em 2006, finalmente eu me formei em administração e, para comemorar, decidi tomar uma cerveja. Mas o álcool é um gatilho para a droga. Recaí e fumei todas as pedras a que tinha direito. Sou daquele tipo que acaba com o estoque do traficante. Apesar disso, nunca deixei de atender às necessidades de meus dois filhos e de minha mulher.
Hoje alterno períodos de seis meses sem usar, mas sempre recaio. Chego a ficar dois dias fora de casa. Virei um ‘noia’. Por insistência da família, decidi me internar no último dia 8. Fui para a clínica só com a roupa do corpo e com a vontade de ficar livre disso de uma vez por todas. Hoje sei que sou doente. Preocupo-me com meus filhos e com minha mulher, que nem sei mais se ainda tenho.”
M.G.O., 41, empresário, dono de postos de gasolina

Crack: "De cada dez pessoas que provam, nove viram dependentes"

Jorge César Gomes de Figueiredo, psiquiatra especialista em dependência química

Jorge César Gomes de Figueiredo, psiquiatra especialista em dependência química

“Antes, aparecia só um ou outro dependente de crack. Hoje, dos sete pacientes internados na minha clínica, que tem mensalidade de 13 500 reais, três são viciados nessa droga. Tem advogado, filósofo, professor... O poder viciante é impressionante. De cada dez pessoas que provam bebida alcoólica, uma vira dependente. Com o crack, são nove.
Quem fuma não precisa de mais nada. Encontra tudo na droga. Tem a sensação de que é forte e invulnerável. Rapidinho, o prazer da droga desaparece, mas a lembrança eufórica faz com que a pessoa não consiga largar. Ela fica agressiva, perde a autocrítica. Se precisar pisar no pescoço da mãe para conseguir a droga, vai pisar. Quem fuma crack vira um monstro.”
Jorge César Gomes de Figueiredo, psiquiatra especialista em dependência química

Crack: "Assim como me ajudaram, agora quero ajudar"

Gabriel Mori, 26 anos, dono de uma clínica para dependentes químicos

Gabriel Mori, 26 anos, dono de uma clínica para dependentes químicos

“Eu era vendedor de uma concessionária Chevrolet. Só negociava com frotista. Ganhava até 10 000 reais por mês. Um dia fui comprar maconha, mas me empurraram o mesclado, que é a maconha com crack. Em menos de um ano estava entregue. Fui demitido e larguei o curso de publicidade na FMU. Perdi 35 quilos. Foi uma degeneração total.
Cheguei a roubar os celulares de uns amigos do meu pai que estavam em casa. Não pedia ajuda porque tinha medo de perder minha noiva. A gente acha que ninguém percebe nossas mentiras. Tentei largar diversas vezes, mas a fissura é incontrolável. É como um pênalti para o seu time aos 47 do segundo tempo. Enquanto o jogador não bate, você fica louco.
Estou limpo há três anos e meio. Há dois anos, depois de fazer vários cursos na área de dependência química, resolvi abrir uma clínica. Assim como me ajudaram, quero ajudar, porque sei que é possível deixar a droga para trás.”
Gabriel Mori, 26 anos, dono de uma clínica para dependentes químicos

Crack: Quando o problema chega em casa

Medidas duras e extremas fazem parte das recomendações de grupos de apoio a familiares de usuários de crack

Reunião do grupo de apoio Amor-Exigente: mais de 1 000 pessoas atendidas por mês

Reunião do grupo de apoio Amor-Exigente: mais de 1 000 pessoas atendidas por mês

Revistar o quarto, internar o dependente compulsoriamente, chamar a polícia e até proibir sua entrada em casa. Medidas duras e extremas como essas fazem parte das recomendações de grupos de apoio a familiares de usuários de crack. Nem todas elas recebem o aval de especialistas, mas mostram o grau de dificuldade que parentes têm na hora de resgatar quem caiu no submundo do crack. “Como o usuário perde rapidamente o contato com a realidade, cabe à família tomar a frente do problema para resgatá-lo”, afirma Mara Silvia Carvalho de Menezes, presidente da Federação Brasileira de Amor-Exigente, voltada para auxiliar pais de dependentes químicos, que conta com trinta grupos de apoio na cidade.
Mara afirma que o alcoólatra, de alguma maneira, percebe o que está se passando, enquanto o “craqueiro” demora a se dar conta do tamanho do problema. “Se você flagrar seu filho com crack, sente-se para conversar e mostre que está aberto e pode ajudar. Mas sem passar a mão na cabeça”, diz João Blota, ex-usuário, limpo há treze anos e autor do livro Noia, lançado em 2009. Segundo Mara, a primeira atitude é reunir os familiares para traçar um plano de ação e consultar um especialista em dependência química. “Em alguns casos, a internação involuntária ajuda porque, após a desintoxicação, o dependente pelo menos toma ciência do que está se passando”, explica a psicóloga Fátima Padin, da Clínica Alamedas, nos Jardins, que trata de dependentes em esquema “day care” desde setembro de 2008.
Ela, no entanto, desaconselha chamar a polícia, mesmo que o dependente esteja roubando a própria casa, o que é extremamente comum. “Prefira sempre acionar o resgate, pois se trata de um problema de saúde. O dependente é um doente.”
Outra recomendação passada pelos profissionais de grupos de apoio mostra a ferida que pode ser aberta nas relações familiares. “Nem sempre os pais devem permitir que o dependente entre em casa”, diz Luiz Fernando Cauduro, voluntário da Amor- Exigente. “A proposta é que o jovem tenha perdas. Mas isso, claro, não é uma norma.” A dura recomendação foi seguida pela analista de sistemas M.M.R., de 55 anos. Depois de descobrir que o filho usava crack, ela fez de tudo para conseguir interná-lo.
“Após várias recaídas, quando ele aparecia em casa, eu não o deixava entrar”, conta M. “Foi difícil, mas meu coração estava estraçalhado e eu não reconhecia mais meu filho. Precisei ser serena e ao mesmo tempo severa.” Desde 2008, após quatro anos mergulhado no crack, I., 26 anos, seu filho, formado em gastronomia, está em sobriedade e voltou a trabalhar.